O trabalho do fotógrafo

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Em geral, meus posts são para mostrar imagens, mas hoje vou fazer algo um pouco diferente.

Recentemente eu recebi um comentário no Facebook que me fez refletir (na hora eu me exaltei um pouco, mas pensei melhor e apaguei meu “momento desabafo” rs). Esse meu post no Facebook repercutiu muito e estava tomando proporções muito maiores do que a minha real intenção (expor humores alterados dá um ibope, né gente?! rs). Tendo horror a ideia de fazer drama para ganhar confete em redes sociais,  logo apaguei meu textinho e vim aqui para o meu canto, explicar melhor o que tentei falar lá, na pressa. Porém, queria falar para todos que me escreveram que li os comentários e fiquei feliz com o carinho! Muita gente querida sempre querendo dar apoio!

A pessoa escrever “Fala sério, muita sorte da fotógrafa!” em um trabalho todo pensado e planejado em cada detalhe, desencadeou essa minha vontade de tentar explicar tudo o que está por trás do trabalho dos fotógrafos, e que ninguém vê. Antes de um ensaio, por exemplo, eu faço uma reunião com o cliente, definimos o conceito do ensaio, pensamos a produção, ajudo a escolher as roupas e demais detalhes, pesquisamos a locação, depois pensamos a luz, a exposição, o enquadramento, o ângulo da foto, dirigimos o cliente ou esperamos as melhores poses, exploramos uma situação ao extremo, fazendo vários clicks até conseguir “A” foto, editamos cuidadosamente o material, tratamos a imagem, pesquisamos, estudamos as técnicas. Se o fotógrafo escolhe se agachar ou dar um passinho para a esquerda na hora do enquadramento, por exemplo, pode fazer muita diferença no resultado final.

Então, o sucesso de um ensaio fotográfico depende basicamente de escolhas – uma série de escolhas bem feitas – pouco tendo a ver com sorte. O fotógrafo pode criar algumas situações e coordenar esses elementos todos (e não estou tratando aqui de fotografia de eventos, quando não temos controle nenhum sobre a situação e nossa função é documentar o que está acontecendo). É claro que o controle total nunca é possível a não ser em fotografia de still (objetos e produtos em estúdio), e ao lidar com pessoas – seres imprevisíveis – às vezes a foto que queremos e planejamos com tanto carinho não sai meeesmo (experimente coordenar as poses de quatro criancinhas pequenas, ou então um cachorrinho danado junto à uma criança de 2 aninhos)! Em algumas situações, o que vai fazer diferença é o jogo de cintura do fotógrafo e sua habilidade em solucionar problemas de maneira criativa. Não que um pouquinho de sorte não ajude ninguém. Pelo contrário, aparecer o “momento certo” na sua frente pode ajudar muitooo, mas se vc não tiver técnica, um olhar treinado, pensar rápido e ter habilidade… a sorte vai passar por você e você nem vai perceber! O que quero dizer é que a sorte ajuda, mas nunca determina sozinha o sucesso de uma foto ou a qualidade de um trabalho.

A maioria das pessoas não faz ideia de tudo isso, porque o que elas vêem concretamente é o simples apertar do botão. E é totalmente compreensível que elas não saibam. Eu mesma não tinha ideia do trabalhão todo que dá fazer um ensaio e todas as horas envolvidas até eu começar a trabalhar com isso!

Achava caro e absurdo alguns preços, afinal, eram só umas fotos! Todo mundo tem câmeras profissionais hoje em dia. Há fotógrafos a cada esquina cobrando uma mixaria. Aí a gente se baseia pelo profissional que cobra mais barato e pensa: “Se ele cobra isso, ele deve ter lucro, então por que esse outro fotógrafo acha que pode cobrar 5 vezes mais?!”.

A questão é que muitos profissionais não sabem colocar seu preço (principalmente os iniciantes. Que tortura é definir preços! Passei por isso). Além disso, cada um trabalha de uma forma diferente e oferece coisas diferentes para mercados diferentes. Um trabalho original, exclusivo e personalizado exige muito mais tempo e dedicação do profissional do que uma produção em massa, por exemplo, e isso precisa ser valorizado. Os investimentos financeiros em equipamento, estrutura e estudos também são diferentes, os investimentos de tempo e energia dedicados à constante busca por evolução técnica e profissional são diferentes e, consequentemente a qualidade dos serviços e do produto final também.

Aliás, com as câmeras digitais o erro de muita gente é achar que fotógrafo não tem custo. Os equipamentos são super caros (ainda mais quando se opta trabalhar com produtos top de linha), eles têm vida útil (infelizmente uma câmera não dura para sempre – dependendo do modelo, a vida útil da câmera pode girar em torno de 50.000, 100.000 ou até 300.000 clicks). As lentes também são caras e requerem manutenção (isso quando não as derrubamos no chão e quebramos o motor de foco. ai!), CF cards dão pau (e uma vez que deu problema, é R$ 500,00 que vai para o lixo, pois não podemos arriscar comprometer fotos futuras) flashes, radio flashes, acessórios, computadores, softwares, branding, sites, sistema de seleção online, seguro, aluguel do escritório/estúdio, contas de luz, HDs (foto em RAW ocupa um espaaaço…), combustível, e a lista continua…

Além desses custos mais concretos, tem algo em jogo até mais valioso: o TEMPO.
Até abrir a minha empresa e começar essa rotina doida de trabalho, eu não tinha idéia do quanto essa vida consome tempo!
Um renomado fotógrafo de casamento – o Vinícius Matos – publicou um texto em seu facebook explicando por que a falta de tempo é o mal do fotógrafo digital. É um pouco longo, mas ele retrata MUITO bem a realidade da maioria dos fotógrafos:

“(…) Pelas minhas contas, um casamento gera em torno de 50 horas de trabalho. Sim, em torno de 10 horas no dia do evento e aproximadamente 40 outras horas divididas entre planejamento, locomoção, atendimento a noiva, escolha de fotos, emails, edição, tratamento e design de álbum. Se eu me esqueci de mais alguma coisa, por favor me lembre. Enquanto isso um simples ensaio de família nos consome no mínimo 15 horas de trabalho chegando até a 25 em alguns casos. Se você tem problema de coração, pare de ler o artigo agora!

Os nossos clientes infelizmente não tem a noção destas horas trabalhadas nos bastidores, infelizmente né? O mais triste é que muitos fotógrafos também não sabem da existência deste número de horas. O resultado pode ser visto pelos profissionais descabelando-se no facebook por não ter mais tempo para o lazer. Eles passam a noite enfiados em um computador, trabalham fins de semana e assim deixam de lado a vida social, pessoal e a fotografia começa, de certa forma, a virar um instrumento de tortura. É aí que mora o perigo. Quando o prazer vai embora, a criatividade tende a ir junto e a qualidade do trabalho cai. A fotografia se torna mecânica. Para exemplificar, prefiro fazer aqui algumas simulações.

Se um fotógrafo fecha 35 casamentos por ano, e 12 sessões de família, gestante ou algo do tipo, isso quer dizer que ele precisará de pelo menos 2150 horas de trabalho para cumprir com seus compromissos com os cientes. Fazendo as contas, 9 horas de trabalho por dia. Parece razoável não? Não, um desastre total. Este mesmo fotógrafo que terá que trabalhar 9 horas por dia em cima desses casamentos e sessões ainda precisa cuidar do seu negócio, postar em seus blogs, visitar parceiros, atender os clientes que não fecharam, responder emails, visitar o contador, ir ao banco, preencher planilhas do excel. Estimo que isto tudo absorve em torno de mais 2 horas diárias no mínimo. E assim já estamos falando de 11 horas de trabalho por dia. A questão é que nenhum ser humano consegue, por muito tempo, trabalhar 11 horas ininterruptas como uma máquina. É preciso parar para almoçar, lanchar, respirar e esses intervalos nos levam mais 2 horas em média. A conta já está em 13 horas de trabalho por dia.

Parece pouco? Calma! Agora é que vem a paulada. As interrupções acontecem. Sempre aparece algo que não esperávamos, uma ligação de casa, uma visita de um amigo, levar o cão no veterinário, uma mensagem no facebook, uma olhadinha no twitter e assim, os ladrões de tempo, como são chamados por especialistas da área, aparecem e nos subtraem mais uma fatia dos nossos escassos minutos. Mais 2 horas por dia vão fácil nas mídias sociais e demais ladrões. O Facebook é considerado hoje é um vilão? Não, vilões somos nós que não sabemos utilizá-lo.

Já se foram 15 horas de trabalho diários, o fotógrafo ainda nem tomou banho e cuidou de sua higiene pessoal. Não tomou café, nem jantou. No caso das fotógrafas, ainda há muitas vezes casa, filhos, empregados domésticos para administrar, etc. Sem falar que o fotógrafo também dorme né? Ou melhor, dorme pouco diante de tudo que foi dito aqui. O buraco aumenta, ele se desespera, cancela a viagem de Carnaval. Falta tempo, só lhe resta reclamar nas mídias sociais. As mesmas mídias sociais frequentadas pelos seus clientes que assistem sem entender porque ele então continua fotografando se a vida está tão ruim assim. (…)

Enfim, queria explicar um pouquinho dos bastidores da vida de fotógrafo! rs
Para quem quiser julgar, poder fazê-lo com mais propriedade.

Apesar disso tudo (rs), a fotografia é linda, gratificante e me completa! A parte do “business” é que complica um pouco. Mas, me sinto muito privilegiada em poder ganhar dinheiro fazendo algo que amo tanto!
Tenho certeza que mesmo que eu não precisasse de dinheiro ou não pudesse mostrar minhas fotografias à ninguém, eu continuaria a produzi-las (mas com certeza não nesse ritmo louco e com prazos apertados, é claro). Preciso disso financeira e emocionalmente para viver.

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  1. Istefane Barros disse:

    super fã do seu trabalho ,infelizmente as pessoas têm que aprender a valorizar o trabalho do proximo e no seu caso obra de arte parabéns!

  2. Oi Re..td bem?
    1º..parabens pelos trabalhos…e tbm sou fã dos pets…tenho 5 gatinhas e um gatinho…rsrs
    Meu site esta pra ficar pronto…depois de 4 anos enrolando, este ele sai…e eu outro dia acabei discutindo com alguns amigos que vivem me chamando de “apertador de botao”… e estava procurando um texto igual o seu e não tinha visto este texto do Vinicius….gostaria de copiar sua publicação e publicar em meu site quando ficar pronto, que explica perfeitamente nosso trabalho de “apertadores de botao”…
    Se vc permitir, claro que tera todos os créditos certinho, como manda o figurino.
    E vou add no meu instagram pra vc conhecer minhas princesas.

    Obrigado Re…bjos.

  3. Yasmin disse:

    Nossaa ! Eu amei o trabalho de vcs.
    Na verdade eu amo fotografia e amei o jeito em que vcs fazem isso !
    Parabéns
    De onde vcs são ?

  4. Camila Eckstein disse:

    Talvez de todas as expressões cabíveis no momento a ideal seja : Perfeição

    O trabalho de vocês é maravilhoso e realmente mostra quanto de dedicação é aplicado. Parabéns

  5. Jéssica Veiga disse:

    Começando agora na fotografia eu te digo: Não há NINGUÉM nesse planeta que seja maior inspiração pra mim na fotografia do que você! Parabéns! Seu trabalho é o mais bonito pra mim do que qualquer outro que eu tenha visto (e gosto de uns de fotógrafos do exterior também), e um dia sonho em chegar na qualidade e amor que suas fotos retratam! Beijos!

  6. Pingback: O trabalho do fotógrafo | Trankeyra

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